DIAS
Despenham-se na acidez das manhãs Íngremes e imprevisíveis Como as águas de Abril, Abreviando-se, depois, em amarelos claros. Vejo-os na semi-lucidez do acordar, Antes da lenta queda Do elevador singular e intermitente. Voltam, depois, Suspensos no mel Dos olhos dos gatos omnipresentes E dispersam-se por todos os nenhuns lugares Com urgências de pólenes ao vento. Caem, por vezes, Como inexistentes pedras No interior das confortáveis ausências Que se sublimam em alegres, subversivas criações. Prolongam-se na comunicação Em gargalhadas Ou na raridade das lágrimas [conforme o sumo das alheias horas] Na mesa concêntrica onde se cozinham percursos Enquanto se bebem demorados cafés. Continuam, sempre, Até irem soçobrando, a oeste de mim, No azul líquido que se escurece de luminosidades artificiais E morrem, inevitavelmente, No momento pendular de todas as renúncias. Renascerão mais tarde, Na subtracção das horas somadas, Um a um, Num sopro súbito de permanência consentida.