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A mostrar mensagens de abril, 2009

DIAS

Despenham-se na acidez das manhãs Íngremes e imprevisíveis Como as águas de Abril, Abreviando-se, depois, em amarelos claros. Vejo-os na semi-lucidez do acordar, Antes da lenta queda Do elevador singular e intermitente.   Voltam, depois, Suspensos no mel Dos olhos dos gatos omnipresentes E dispersam-se por todos os nenhuns lugares Com urgências de pólenes ao vento.   Caem, por vezes, Como inexistentes pedras No interior das confortáveis ausências Que se sublimam em alegres, subversivas criações.   Prolongam-se na comunicação Em gargalhadas Ou na raridade das lágrimas [conforme o sumo das alheias horas] Na mesa concêntrica onde se cozinham percursos Enquanto se bebem demorados cafés.   Continuam, sempre, Até irem soçobrando, a oeste de mim, No azul líquido que se escurece de luminosidades artificiais E morrem, inevitavelmente, No momento pendular de todas as renúncias.   Renascerão mais tarde, Na subtracção das horas somadas, Um a um, Num sopro súbito de permanência consentida.

A AULA

Semeiam mil palavras e conceitos Na vertical dos sonhos Que ninguém, ainda, derrotou   Interagem em espaços a-dimensionais Onde as vontades se esbatem na inércia das horas E somam multiplicações Onde a divisão se remete Para a pequenez do pátio de recreio No grito-zumbido da campainha.   Aulas. Aulas como promessas Do que ainda lhes não foi negado.   Depois, só depois começa a aula.  

CONTRA-DICÇÃO

Como pode ele sorrir se a terra treme E há crianças violadas na esquina dos medos? Como pode nascer-lhe a gargalhada Sobre a lucidez trémula do peito?   Como pode, sequer, esboçar o sonho Se lhe semearam, no patamar dos olhos, Pedaços de irmãos dispersos como folhas?   Como pode ainda ver, se lhe encheram os pulmões Do acre das tragédias gratuitas pintadas de doce?   Como pode?...  

MARGINALIDADES

Desenham-se-lhe desejos como avejões Num além sinistro e confuso, Revolto e vermelho escuro.   Assim se lhe crispam as mãos Sobre o róseo do perecível E se eterniza a necessidade Na destruição do construído.   Morrem-lhe os dedos No cume de si mesmo, Ultrapassa-se no róseo Avermelhado de outra crispação E morre, depois, Exausto como um pôr-do-sol Exactamente no auge Do que jamais havia desejado.   Renascem as perguntas.  

ESPAÇOS

As nuvens descomprometem-se Serenas, vagarosas, Lá, no imenso azul das verticais De cada desconhecido.   Lambem-se os gatos No desfastio das horas mais fecundas E afunda-se outro sol Por desvendar em luas.   Propõem-se-nos outros vazios, Alaranjados, nas arestas De cada um dos horizontes.   Espaços. Apenas espaços Onde terminam os vazios Aonde se chega de autocarro Ao comboio de todos os dias.