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A mostrar mensagens de dezembro, 2009

A PASSAGEM DE NÍVEL

A menina de vestido azul Avança dois passos à minha frente. O horizonte termina na linha do comboio Que descortino subitamente.   A luz vermelha acende no preciso momento Em que a menina de azul Pisa o primeiro carril.   Grito, aceno, alerto, Mas ela não me ouve.   O comboio passa e a menina permanece Apesar dele, dos acenos e dos gritos. Apesar da luz vermelha…   Sou eu quem não está lá, Naquela inexistente passagem de nível Onde acaba a linha do horizonte.      

NESSA CASA

  Nessa casa Os dias eram maiores... As coisas eram, invariavelmente, vivas E os vivos eram, pontualmente coisas. Os medos e as revistas da novela Arrumavam-se, sempre, No quarto da criada E as patologias Dentro dos livros.   Havia sempre livros Nunca demasiados, contudo, E as paredes Eram cúmplices Dos meus infantis murais. A enorme janela da sala A poente Convidava A vespertinos arroubos Da criação Que seria, sempre, A Senhora da casa.   Depois havia mais casas Parecidas, mas muito diferentes… A seguir era o Tejo Aonde encontra o mar. O Sol Punha-se, sempre, A nascente dessa casa, Onde nasciam os abrunheiros.   As memórias Tomavam chá connosco E jogavam às cartas Nessa casa. Para além dela O mundo era diferente... No fundo O mundo era apenas Uma consequência dessa casa Nessa casa.   Nessa casa escrevi, Pintei e desenhei Como hoje desenho, Pinto e escrevo Sempre que reinvento essa casa Nesta casa aonde sou Consequência de mim NESSA CASA.    

O ADIAMENTO DA SAUDADE

Olho sem ver, Vago olhar ligeiramente alienado, Os ponteiros do meu relógio Três minutos e meio adiantado, Tica-taca, tica-taca, Implacavelmente decidido A não parar.   Olho sem ver Mas vislumbro no vidro Uma lágrima teimosa Que deixei escapar…   Vislumbro Uma saudade adiantada? Atraso os ponteiros Decididamente, devagar… Retardo a hora Mas não retardo o tempo Porque era o tempo inteiro De uma vida Que afinal quereria retardar…   Sorrio àquela lágrima traída E fico vagamente distraída A atrasar, a atrasar, a atrasar… Atrasando eu vou acreditando Que o tempo, um destes dias                                        Vai parar…     Na madrugada do conhecimento -1995