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A mostrar mensagens de julho, 2009

HORAS ANTIGAS

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        Sobravam-lhe as horas Noprolongamento do reflexo Em indesmentível declínio.     Ali, onde os espelhos Nasciam dos vidros das montras E das poças de água nas calçadas Descalças de sonhos, Sobravam-lhe luas e amantes Nos ambíguos desamores De cada fim de tarde.   Amanhã seria tempo De sobrarem mais rugas de expressão Na expressão de todas as horas.       Maria João Brito de Sousa - Julho, 2009  

QUASE, QUASE...

Sobrevoam-se passeios e canteiros, A alma a diluir-se, De partida, por entre pedras, caules e outras gentes. Alheia. Cada vez mais, Quase, quase a terminar ali, Onde os longes se fundem em nós, Onde as ausências são omnipresentes.   Ali, onde quase, quase, Se destilam sensações, Onde quase, quase se sente a partida Como se alguma coisa se pudesse ainda sentir, Naqueles canteiros húmidos de indecisão…   Se se pudesse sentir, Não estaríamos quase, quase de partida Porque onde a partida quase, quase se sente, Já tudo o mais deixou de ser sentido. Ou quase, quase…      

RESQUÍCIOS

Invade, à noite, o palco dos sentidos Uma memória turva e pendular. Exumam-se palavras que sorriem Na aridez de todos os passados E silencia-se o sabor neutro De um presente que desliza Mais ou menos suavemente, Conforme o sal do momento.   Cai o pano sobre as pálpebras do sonho Assim que a lucidez exige o disparo das mãos. Urbano, o Homem percorre as calçadas De um tempo ainda insurrecto e mal adivinhado.   Como querias tu que eu te falasse Dos passados que me foram subtraídos Pela monotonia das horas previsíveis?  

REALIDADE E REPRESENTAÇÃO

Calcula-se no centro, Traçado a compasso ou fio-de-prumo Sobre o imenso planeta da sua indecisão.   Sente-se ali, no âmago De todas as coisas perceptíveis.   Além, a vida continua, Descontinuamente paradoxal, Comandando cada caos a toque de sinapses, Carbono e enxofre primário No recomeço de cada concepção lunar.   A “cosa” tocada - não a sua representação! – Permanece e cala mais fundo.   Ah! A metafísica importância dos sentidos…      

SÓ POR ISTO...

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        Só por lhes ter tapado os ouvidos Como se a guerra tivesse acabado de morrer   E  ter seguido na perpendicular da minha sombra,     Só por este empeno de nunca ter tempo, De ter uma vontade cujo leme encravou, Cuja âncora ousei desprezar Nos longes de um oceano de poemas,   Só por este medo de nunca ter medo, Este (não) querer repousar na solidão de mim Nas águas baptismais de um mar Que ninguém ainda descobriu,   Só por esta trajectória espiralada - de fora para dentro... - Onde o tempo se projecta Nas infinitudes da paz centrifugada E nos cúmulos luminosos Das nuvens do pensar,   Só por este morrer e acordar, Acordar e morrer sem nunca saber - de absoluta certeza, rigorosa e cientificamente comprovada... - Se as fronteiras se medem na solidez dos ossos E na largura das carnes, Ou na profundidade de um olhar que (nem) todos entendem estar perdido...     Maria João Brito de Sousa - 21.07.2009          

MISTÉRIOS DE CANETA

Nos cabelos das ondas, Nos lençóis de areia, Nas luas de papel Que os dedos das horas Recortaram, sem saber, Nas estrelas que a maré semeia De infinitos tentáculos, Aí, percorridos os minutos, um a um, Cristalizam-se os mistérios improváveis De cada paixão por conceber E nenhum sonho aceita os impossíveis.   A caneta, rolando, Absolve a inevitabilidade de todas as mortes.  

DESCAMINHOS

Depois de perdido No labirinto dos olhares do mundo, Arrancado aos eixos de um tempo linear, Afogado nas horas disfarçadas de azul-celeste...   Depois de devidamente Arrancadas as raízes, Podados os ramos do sentir, Colhidos os frutos que podiam ser úteis, Apontaram-lhe O caminho politicamente correcto Na direcção do cativeiro travestido de sorrisos.   Nesse mesmo dia, Desenraizado, Despojado de frutos, Despido de sonhos, Amputado de afectos E devidamente encaminhado...     Aprendeu a voar por dentro.

O CORVO SEM NINHO

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  Negro, negro, Urbano entre ciprestes, Derrama um chamamento imperativo O corvo que hoje vi na capelinha.   Só. Tão só, o negro corvo E eu tão recheada de ninhos, de caruma...   Ali se desenhava em contraluz, Negro e magnífico, Sem rasto de ninho, Vestígios de raiz, Ali, onde eu acabara de lançá-las No solo em que me reinvento a cada meio-dia... Maria João Brito de Sousa