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A mostrar mensagens de fevereiro, 2010

PALAVRAS

      Vive o teu silêncio à flor do que não esqueces, dizia-me.   Eu sabia das coisas por detrás das palavras e sorria-lhe de dentro das letras que vestia de negro.   De todas as palavras que jamais nasceram só as do papel me sabiam a verdades.

NOS DEDOS DO VENTO

Vêm duras e ásperas Nos dedos do vento Quando o vento se esquece de nos vir beijar.   Vêm desmentindo A improbabilidade da violência E renascem de encontros ficcionados No vértice das almas.   Vêm pontualmente cruas, Inevitavelmente rígidas, Chicotear a saliva dos beijos adiados.   Mas vêm E morrem de seguida Onde a vontade derruba A mais perfeita das sincronias.        

FALA COMIGO DEPOIS DO ESQUECIMENTO

Quando as noites se encherem Dos veludos da lua, Fala-me então dos líquidos abismos…   Conta-me Da sonoridade de todos os silêncios, Das tonalidades da escuridão, Do pressuposto precipício Escavado no final de cada palavra.   Diz-me Do cheiro vislumbrado nas asas dos anjos, Do sabor dos ecos mais prolongados, Do toque sedoso de uma abstracção…   Fala-me então Mas deixa que me esqueça Antes que as noites se encham dos veludo da lua E os líquidos abismos Derrubem o que resta da minha vontade.    

AS ASAS DOS PÁSSAROS INVISÍVEIS

De vez em quando Descobrimos que as coisas nos descobrem E que as descobertas Cabem no punho fechado dos meninos Acabados de parir.   De quando em vez Descobrimos que a vida tem sabores Iguaizinhos aos dos gelados Da nossa infância Acabada de revisitar   Porque todos os dias Há pássaros de asas invisíveis Que vêm contemplar-nos o sono E adormecem nas esquinas De um pesadelo que não chega a nascer.          

UMA MORADA POR DETRÁS DO ESPELHO

    Quase todos os homens têm Uma morada por detrás de um espelho.   Nem todos se aventuram A pernoitar nela, Mas todos a construíram Com maior ou menor Grau de esforço e consciência.   Quando a tormenta Abala a morada visível, A maioria refugia-se Na casa que o espelho protege Embora Em quase todos os casos O espelho reflicta a própria tormenta…   Noutros, porém, a tormenta Nunca chega a atingir A superfície de quase todos os homens Que se aventuram a reflectir.                        

AB INITIO III

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      Há muitas ruas atrás, Quando o tempo não decorara ainda O nome de todas as coisas E era demasiado cedo Para que os beijos mordessem A periferia dos corpos maduros e acesos,     Havia botões de rosa a despontar  Nas estrelas mais longínquas E as florestas proliferavam dentro dos corações dos elfos...     Antes disso,   Apenas meia dúzia de sementes Despontavam teimosas do caos Que prenuncia o começo De toda a criação...   Maria João Brito de Sousa - 22.02.2010