MEMÓRIAS
Nessa noite uma lua prenha, rodando tão devagar que qualquer olhar lhe atribuiria a imobilidade do grafismo impresso, deixou que uma nuvem cinzenta a tapasse * Depois, sobre o louceiro da sala, no aquário dos sonhos antigos, um novo e inesperado peixe incolor foi-lhe devolvendo a memória dos “crayons” até que a insubmissão de uma mão imaginária os quisesse e soubesse ressuscitar na vontade dos dedos * Fazia tanto frio na floresta das cores onde as horas, como agulhas, lhe apontavam as conchas vazias de mil gestos sem esperança de fruto... * Bastou porém que esse peixe se agitasse levemente, que uma palavra espelhasse a cor da nuvem, que as invisíveis raízes suportassem o inevitável tronco, que o impensável cilindro se alongasse em ramos impossíveis, que as velhíssimas memórias se metamorfoseassem em folhas improváveis para que a substância do fruto se viesse a tornar tão real quanto aquela absoluta urgência de o ouvir cantar por dentro de outra novíssima criação. * ...