ABUTRES E BEIJA-FLORES
Via-os por ali Hilariantes, Patéticos fantasmas de abutres Babando-se de incontida curiosidade Via-os Quando se dava ao trabalho de olhar, Se se dava ao trabalho de olhar Inacreditáveis somatórios De infortúnio e pobreza Muito bem vestidos, Muito míopes, Muito desequilibrados, Muito bêbados Muito opinativos E muito pouco inteligentes Umas vezes Irritavam-no, Noutras Enchiam-no de pena Alguns, Mais puros Do que o bando comum Pousavam devagarinho E ficavam Na imobilidade nervosa Da sua timidez. Pequenos beija-flores Que não chegavam A beijar coisa nenhuma, Raros, Silenciosos, Bem-intencionados E belos Na esmagadora maioria Dos dias Nem sequer os via Muito embora por lá continuassem Simulando Uma indiferença Que só a ele Legitimamente pertencia. Maria João Brito de Sousa – 29.08.2010 – 01.54hs IMAGEM - Stuart Carvalhais