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A mostrar mensagens de março, 2014

ESPELHO MÁGICO, ESPELHO MEU...

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ESPELHO MÁGICO, ESPELHO MEU *   Não era a minha face que via nesse espelho... era a de uma outra Alice no país dos pesadelos  que se transmutava ao sabor dos cogumelos e sabia dar corda ao relógio do coelho...  Não era a minha face, com certeza! * Era, talvez, a da Menina-do-Capuz-Vermelho apaixonada por um lobo velho,  com ele fugindo ao caçador malvado - a avozinha comprava os bolos no supermercado e todos os dias dançava rock and roll na penumbra do quarto     * Era a da Bela-Adormecida que nunca mais conseguia adormecer e se deitava a escrever cartas de jogo à Bruxa-Arrependida *   Era a da Branca-de-Neve dos sete-mil-anões devorando maçãs-desencantadas, tentando acreditar que nem tudo são desilusões  * Ou  a   da Princesa-dos-Sapatinhos-de-Cristal a vir da discoteca às cinco e tal  * Talvez a  do Pinóquio, sorrindo  no ventre da baleia   ou - quem  o sabe? - da Pequena-Sereia, mas nunca a minha face: Não era a minha face verdadeira!  *   Maria João Brito de Sousa - 1992/3    

HERANÇA

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Avô, Porque me deixaste Tanto tempo antes de partir de verdade? *   Nenhum de nós tinha na mão a tua sorte E se algum dia te desejei a morte Foi para te libertar duma vida estagnada, Para que procurasses a Sereia Encantada, O Anjo Azul que te convidou para jantar E a Ilha Deserta que, enquanto vivo, não pudeste encontrar  * Dos piratas malaios com quem brincavas Em menino Deixaste-me a cor da pele, O negro dos cabelos E o vago olhar felino  * Sempre que embarco na tua Jangada de Luar, Oiço as ondas que me pedem contas Das tuas rimas vivas como o mar, Desses teus versos líquidos, salgados E Só sei responder-lhes Que te vi partir de olhos fechados Que, De ti, Só sobraram Os meus pobres poemas naufragados Numa praia de areia calcinada Onde me encontro com os mortos que voltaram Pr`a  perguntar-me da tua morada *       Maria João Brito de Sousa - 1992  

ARBITRARIEDADE

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  ARBITRARIEDADE * Era uma mulher traçada a fio de prumo, vinda dos tempos primevos do homem-vertical *   Dia a dia, percorria o rumo que fazia do dia vindouro um dia insuportavelmente sempre igual * Era de noite que brincava aos fantasmas, diluída nos incontáveis ectoplasmas das almas que foram e das que estão por vir   por isso, acordava anoitecida sem nunca estar segura de ter acordado do lado de cá da vida *   Ora sonhava sonhos, acordada, ora cantava, estando adormecida;  o que doía era viver multiplicada onde todos a pediam dividida. *     Maria João Brito de Sousa - 1993      

A CHUVA E O GATO NEGRO - 1958

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  É meia noite Que ninguém se afoite a ir à janela! *   A chuva cai, cai E ai dela... *   A chuva cai, cai E vai perder-se no telhado Onde morava o gato negro e esfomeado... *   A chuva cai Em pingos amargos e de dor E tudo molha, e tudo estraga ao seu redor... *   A chuva cai E o velho gato negro esfomeado Cai morto no telhado *   Mas eis que o dia chega E tu, ó noite, vais E o velho gato negro vai pr`ó céu dos animais *   Agora a chuva já não cai... E o velho gato negro? *   Já não se ouve o seu miar Porque o velho e negro gato Já tem onde morar. *     Maria João Brito de Sousa - 1959 (sete anos)

NÃO ACREDITO!

    NÃO ACREDITO   * Não acredito, mas sei, que há almas transparentes como o ar, que há sereias e tritões no mais profundo do mar e que as fadas, às vezes, me vêm visitar * Não acredito, mas sei, que a morte é uma fronteira e logo a seguir a ela mora a vida derradeira... * Não acredito, mas sei, que há bruxas, gnomos, duendes, que vêm repreender-me por viver tão alheada dessa realidade alada, virtual, imaginada, mas que está sempre presente.. *     Maria João Brito de Sousa - 1992

POEMA A UMA RESISTÊNCIA PESSOAL

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  … e, às vezes, tantas vezes de aço vivo, esta dureza vítrea em que me embrulho, este trajar de fraga de alto a baixo, este mergulho em mim negando laços e este dizer que não quase a rugir *   Um dia - um qualquer, eu sei lá quando… -, o bicho em mim acordará estremunhado, esquecido da espada e da armadura, e refar-se-á nos sorrisos e abraços que hoje não toleraria *   Porque só assim uma vida se cumpre, o sol brilhará quando for tempo disso e o corpo aprenderá a tolerar tanta invernia *   Até lá, porém, a luta continua e, de alguma estranha forma,   os órgãos, um a um, persistem nesta estranha/inaudível surdina à qual  nem um pretenso mago cairia na absurda tentativa/tentação de adivinhar o tamanho, a  textura a dimensão da densa/dura crosta/cicatriz que as grandes, grandes feridas pressupõem   *     Maria João Brito de Sousa – 27.12.2013 – 18.15h