ESPELHO MÁGICO, ESPELHO MEU...
ESPELHO MÁGICO, ESPELHO MEU * Não era a minha face que via nesse espelho... era a de uma outra Alice no país dos pesadelos que se transmutava ao sabor dos cogumelos e sabia dar corda ao relógio do coelho... Não era a minha face, com certeza! * Era, talvez, a da Menina-do-Capuz-Vermelho apaixonada por um lobo velho, com ele fugindo ao caçador malvado - a avozinha comprava os bolos no supermercado e todos os dias dançava rock and roll na penumbra do quarto * Era a da Bela-Adormecida que nunca mais conseguia adormecer e se deitava a escrever cartas de jogo à Bruxa-Arrependida * Era a da Branca-de-Neve dos sete-mil-anões devorando maçãs-desencantadas, tentando acreditar que nem tudo são desilusões * Ou a da Princesa-dos-Sapatinhos-de-Cristal a vir da discoteca às cinco e tal * Talvez a do Pinóquio, sorrindo no ventre da baleia ou - quem o sabe? - da Pequena-Sereia, mas nunca a minha face: Não era a minha face verdadeira! * Maria João Brito de Sousa - 1992/3